A mulher morre no puerpério

A mulher morre no puerpério

Durante muito tempo eu não exprimir em palavras o que “foi” o meu pós parto.

A minha primeira filha nasceu em 1998 e tudo o que eu sabia sobre pós parto,havia sido aprendido com minha mãe,avós e tias,ah sim, e vendo a experiência do meu irmão que foi pai aos 16 anos. Foi assustador. Eu não entendia porque minha cunhada (também de 16 anos) parecia tão alheia.

Afinal tinha dado tudo certo. A nenê tinha nascido estava ali,bela e fofa,então porque ela não voltava logo ao normal,porque parecia que não era mais a pessoa de antes que estava ali. Onde ela estava?

E com o meu pós parto foi exatamente igual,até eu digerir o meu processo de “tornar-me” mãe,levou um tempo. Eu me sentia mergulhada em algo que eu não sabia explicar. Havia sido iniciada em uma “sociedade secreta” mas não tinham lido a parte de como eu deveria me portar,como agir. Eu descobri sozinha.

Como vai acontecer com você, com a vizinha.Claro que hoje,ainda bem podemos ler em vários lugares sobre o assunto puerpério mas particularmente o processo de imersão será só da mulher, e eu separei um texto que dá nó na garganta quando a gente lê e trouxe para compartilhar com vocês e para que muitas não se sintam tão perdidas como me senti. Primeiro quero dizer que,essa fase passa, tudo se ajeita,em seu devido lugar,mas você não volta para o lugar de antes,pelo contrário,você passou pela experiência que mais poderia ter te mudado e acrescentado na vida. Esteja pronta para chorar,esteja pronta para refletir,durante o puerpério,mas também abrace essa nova mulher que virá,forte,sensível,uma mãe bicho capaz de tudo pela cria.

Acompanhem o texto visceral da Kalu Brum sobre puerpério que separei para vocês.

 

Não há como se preparar para o puerpério. Ninguém está preparado para saber como é a morte. Podemos ter nossas crenças religiosas, podemos ter referências, mas a verdade é que a gente tem um medo danado do desconhecido. O pós parto é viver em vida a morte do que fomos e daquilo que jamais será igual.
No caso da maternidade é ainda mais difícil porque nos fazem acreditar que o paraíso mora ali, logo depois que o bebê vem ao mundo. Diferente da morte que erroneamente nos é dito para evitar a qualquer custo.  Não lemos as letras miúdas do contrato. Ninguém sabe o que é esse palavão: puerpério.
Primeiro a gente espera nove meses para aquela sensação de plenitude transbordar. No terceiro trimestre a gente se sente linda, plena com aquele barrigão. Somos paparicadas, acalentadas. Mil telefones, minos e carinhoso.
O parto pode ser um êxtase com dor, para o qual a gente, principalmente de primeiro filho, não sabemos ao certo o que será. Ou uma dor de frustração. Mas ver aquela coisa pequena no nosso colo desperta os sentimentos mais dúbios do planeta.
Medo é o maior deles. Talvez como como de esperar encontrar o paraíso depois da ponte se deparar com uma árdua estrada. Mas você está exausta e só queria um tempo para se recuperar. Não há.
O puerpério é solidão. Morremos. Uma instância de nós se vai. A vida muda radicalmente. A minha foi num pacote master plus: mudar de estado, estado civil, de casa, de sonhos, de rotina, de amigos. Sem ao menos saber como fazer para uma casa funcionar, como estaria eu apta para cuidar de outro ser?
Esse monstro também assola os homens. eles também não estão preparados para perderem a mãe, digo a mulher. De não ter espaço naquela relação fechada. Os homens surtam. Mas surtam daquela maneira masculina: calados, distantes.
A solidão bate, aguda e triste. Ninguém se lembra mais de você, essa é a verdade. Nem seu companheiro. Olha a criança e não reconhecem aquela mulher que está ali, em frangalhos. A gente se torna uma massa corpórea disforme. Por dentro e por fora. Todos perguntam do bebê e a gente, talvez por não ser nada ainda nesse momento. se foca nele.
O cérebro, antes intelectualmente ativo, espiritualmente ansioso, parece se realizar com algumas horas de sono, cocos, xixis, arrotos e puns. A gente comemora quando consegue fazer um coco sem interrupção. A noite que a gente desperta no meio da noite cansada de dormir por mais de 4 horas parece um sonho. A gente só fala do bebê. E quando perguntam sobre você não temos coragem de dizer: tá uma merda. A gente acha que tem que agradecer por ter uma família linda, um marido bacana e um bebe saudável. Mas o fato é que a gente quer dizer: eu não sei mais quem eu sou e o que vou me tornar e isso dá um medo do cão.
A maternidade parece que entra como um furacão e fragmenta nossos corpos físicos, emocionais e espirituais. Somos dotadas de mecanismos eficientes de sobrevivência: a intuição se aguça e tudo aquilo que nos faz fêmeas. Mas a gente não serve para o mundo porque tudo o que fazia sentido antes, não faz mais.
Nos tornamos caleidoscópios dos vitrais de nós mesmas a girar em cada nova fase do bebê. Amorfas, sem lugar, mergulhamos fundo em nossa sombras. E naquele espaço podemos emergir mais fortes.
Algo morre no puerpério, algo que não sentiremos saudades e que se transformará em uma amnésia saudosa. Seremos invadidos pelas lembranças dos olhos de entrega, do tempo que passava devagar, da dependência fundamental. Sentiremos falta do corpo pequeno, dos ruídos deliciosos.
Então uma nova semente se implanta. Segundo filho, tudo é um pouco mais fácil, porque já conhecemos melhor nossas sombras e com ela passamos muitas tardes tomando café e jogando lágrimas fora. E na chegada de mais um,nova avalanche, novos desafios e um novo puerpério. Um monstro que espera que o conheçamos para conhecer melhor a nós mesmas.